TERAPIA CANNABICA E SUAS APLICAÇÕES CLÍNICAS

Para conversarmos sobre as doenças tratadas com cannabis, temos que falar um pouco sobre a Planta Cannabis Sativa.sp., suas propriedades e o seu uso, também é importante introduzir o Sistema Endocanabinóide para sabermos como a cannabis atua em nosso corpo.

 

Planta Cannabis Sativa sp.

A cannabis, gênero de plantas medicinais, recreativas e de fonte de fibras, compreende uma única espécie, Cannabis Sativa sp. que se originou na Ásia Central e agora é cultivada em todo o mundo. Aqui no Brasil ganhou o nome popular de maconha. Porém, o uso de outra variação da planta, conhecida como cânhamo para uso industrial, serve de extrato para medicamentos e o uso na indústria.

O termo Cannabis se refere especificamente ao gênero da planta, ou seja, tanto a maconha, quanto o cânhamo são Cannabis. Além disso, são pertencentes da mesma espécie, a Cannabis Sativa sp.

 

Há muitas variedades diferentes de Cannabis. Tanto o cânhamo (Cannabis Sativa sp. subespécie ruderalis) quanto a maconha (Cannabis Sativa sp. subespécie sativa) serem variedades da Cannabis, as plantas foram selecionadas para usos distintos, e podem ser diferenciadas de acordo com a sua composição química e genética.

Sativa

Ruderalis

A principal diferença entre as duas variedades são os níveis de tetrahidrocanabinol (THC) – a substância psicoativa da maconha. O cânhamo praticamente não tem vestígios de THC (< 0,3%), enquanto a maconha tem cerca de 10%; algumas variedades de maconha podem ter até 27% de THC.

 

A maconha é cultivada para promover o desenvolvimento das flores e folhas das variedades psicoativas da Cannabis, com teores elevados de THC, o cânhamo é cultivado conforme o objetivo da colheita: como fibra, semente ou flor.

 

O cânhamo é cultivado para utilização na manufatura de diversos tipos de produtos, incluindo alimentos e bebidas, produtos de higiene pessoal, suplementos nutricionais, tecidos e materiais têxteis, papel e materiais de construção, entre outros produtos industriais e manufaturados.

Além disso, vários medicamentos à base de cânhamo, de forma purificada e padronizados, foram disponibilizados para uso médico. Nos últimos anos, o cânhamo e produtos com componentes de Cannabis são um dos assuntos que mais têm se estudado na área da saúde.

 

Muitos países agora estão permitindo o uso medicinal da Cannabis para tratar várias doenças, incluindo dor crônica, câncer e esclerose múltipla. A Cannabis em si tem mais de 100 componentes ativos. O menos controverso é o extrato da planta de cânhamo conhecido como CBD (canabidiol) porque esse componente tem poucas propriedades intoxicantes. 

Uso Medicinal

A Cannabis Sativa tem em sua composição diversas substâncias, entre elas, o THC, que causa sensação de euforia e bem-estar e por isso é utilizado de forma recreativa, e o CBD que tem um grande potencial e é uma ótima ferramenta para o tratamento de várias doenças crônicas.

 

Estudos científicos recentes, sobretudo, do National Institute on Drug Abuse (Instituto Nacional de Abuso de Drogas, em português – Nida), indicam que o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC) são de extrema importância medicinal, devido ao seu poder de amenizar sinais e sintomas eficaz no tratamento de dores, ansiedade, podendo inclusive desacelerar o desenvolvimento de células doentes no organismo.

 

O Canabidiol (CBD) tem aplicações medicinais registradas ao longo da história. Em 2.700 a. C., na China, utilizava-se a planta para terapia de constipação intestinal, dores, malária, epilepsia, tuberculose e outras doenças. Depois, por volta de 1.000 a. C., na Índia, foi administrada no tratamento de ansiedade, manias e histeria. No início do século XX, seus extratos foram comercializados na Europa para tratar desordens mentais. Porém, o desconhecimento sobre a Cannabis e suas propriedades, e até mesmo por preconceito, seu uso terapêutico diminuiu.

Apenas na década de 60, com o avanço da tecnologia e da medicina, o professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, Raphael Mechoulam, isolou os componentes da planta e descobriu o canabidiol. E, na ocasião, ele verificou que a substância não tem propriedade psicoativa, ou seja, o CBD não causa efeitos sobre a atividade psíquica ou comportamental. Essa informação foi reafirmada em 2017, no relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS). No documento foi registrado, que “o canabidiol (CBD), molécula não psicoativa da planta Cannabis Sativa L., não é uma substância perigosa, pelo contrário, apresenta um potencial terapêutico alto”.

Entretanto, o CBD continuou a ser estudado. Em 1988, Allynn Howlett e William Devabe descobriram a existência de receptores celulares para substâncias da cannabis no organismo de ratos. Posteriormente, essa presença também foi evidenciada em outros animais, incluindo o homem. Junto à essa descoberta, substâncias semelhantes às encontradas na planta foram identificadas, os endocanabinoides – produzidos pelo próprio corpo. O responsável pela fabricação e degradação foi denominado de Sistema Endocanabinoide (SEC). Ele está envolvido na regulação de diversas funções orgânicas como: apetite, digestão, dor, humor, inflamação, memória, metabolismo, proteção e desenvolvimento dos neurônios, imunidade e outras.

O sistema endocanabinoide

É um importante aliado da regulação e equilíbrio de uma série de processos fisiológicos no corpo humano. Entre outras funções, ele oferece as condições naturais para que o organismo se favoreça das propriedades terapêuticas da Cannabis no enfrentamento de uma série de doenças.

 

O sistema é um conjunto de receptores e enzimas que trabalham como sinalizadores entre nossas células e os processos do corpo. 

É neste sistema, que o óleo de CBD interage com o corpo humano. 

Os endocanabinóides e seus receptores se encontram espalhados por todo o corpo, em membranas celulares do cérebro, órgãos, tecidos conjuntivos, glândulas e células do sistema imunológico. Em cada parte do organismo o sistema executa tarefas diferentes. No entanto, o propósito é sempre o mesmo: a estabilização do ambiente interno, independente das variações externas, ou seja, a homeostase.

 

O sistema endocanabinoide também se encontra nas interseções de vários sistemas, permitindo a comunicação e coordenação entre as células. Quando os receptores canabinóides são estimulados, uma variedade de mecanismos fisiológicos ocorrem.

 

O sistema é responsável por regular processos fisiológicos, como apetite, dor, inflamação, termorregulação, pressão intraocular, sensação, controle muscular, equilíbrio de energia, metabolismo, qualidade do sono, resposta a estresse, motivação/recompensa, humor e memória.

Até o momento, pesquisadores identificaram dois receptores canabinóides. O primeiro é CB1, que se encontra predominantemente no sistema nervoso, tecido conjuntivo, gônadas, glândulas e órgãos. Já os receptores CB2 são encontrados no sistema imunológico e suas estruturas. Algumas células contêm tanto receptores CB1 e CB2, cada um ligado a funções diferentes.

 

Embora nosso organismo seja capaz de fabricar seus próprios canabinóides, o sistema endocanabinóide pode ser suplementado por fitocanabinoides exógenos, encontrados em plantas como a Cannabis, equinácea e linhaça.

O corpo humano é um sofisticado conjunto de sistemas que atuam em sinergia para garantir nossa saúde e bem-estar. Para isso, as várias funções dos órgãos que compõem esses sistemas precisam se manter em equilíbrio, de modo que não haja sobrecarga, excessos ou falta de nutrientes.

 

É para que o organismo se mantenha equilibrado que existe o sistema endocanabinoide. Ele é uma espécie de sistema intermediário, atuando como ponte entre células de variados tipos. Por isso, esse sistema é também considerado de grande plasticidade, já que não está fixo em uma parte do corpo ou em apenas um tipo de tecido. Logo, o sistema endocanabinóide funciona como uma espécie de regulador, atuando diretamente em um amplo espectro de reações fisiológicas.

Doenças tratadas com Cannabis

São várias as Doenças tratadas com a cannabis. Abaixo descreveremos como a cannabis age em algumas dessas doenças:

 

Alzheimer: Estudos demonstram a capacidade do CBD de reduzir a gliose reativa e a resposta neuro inflamatória, bem como de promover a neurogênese. É importante ressaltar que o CBD também reverte e previne o desenvolvimento de déficits cognitivos em pessoas com Doença de Alzheimer.

 

Artrite: O canabidiol ativa os receptores CB1 e CB2 do sistema endocanabinoide, que podem diminuir o processo inflamatório crônico da doença.

 

AVC: Ajuda na contenção de danos às células e oferece efeitos neuroprotetores.

 

Autismo: Melhora os sintomas de comorbidade como autolesão, ataques de raiva, hiperatividade, problemas com o sono e ansiedade.

 

Ansiedade:  Usuários de Cannabis medicinal relatam uma redução substancial e significativa nos sintomas de afeto negativo logo após o uso de Cannabis.

 

Anorexia: Evidências ​​sugerem que o sistema endocanabinóide tem papel fundamental em eventos recompensadores, como a alimentação.

 

Acne: Exerce efeitos anti acne complexos, normalizando a produção excessiva de lipídeos sebáceos induzida por ‘agentes pró-acne’, reduzindo a proliferação e aliviando a inflamação em sebócitos SZ95 humanos.

 

Alcoolismo: Reduz significativamente o consumo de álcool e os motivos que levam ao uso, como ansiedade, depressão e etc.

 

Câncer: Ajuda a tratar células tumorais em diversos órgãos como útero, testículos, pâncreas, cérebro, boca, garganta, mama, pulmão, próstata, pele, fígado entre outros.

 

Depressão: Induz efeitos do tipo antidepressivo e alivia de imediato os sintomas do transtorno.

 

Dermatite: Atua na pele como antioxidante e anti-inflamatório.

 

Diabetes: Ajuda a reduzir os níveis de insulina em jejum, ao diminuir a resistência à insulina e reduzir a circunferência da cintura.

 

Doença de Parkinson: Melhora a qualidade de vida e o bem-estar dos pacientes tanto em relação aos sintomas motores, como os não motores.

 

Dor crônica: Redução da dor e de sintomas associados, aumento da qualidade de vida e redução no consumo de medicamentos como opiáceos.

 

Endometriose: Para a proliferação celular, impede a migração de células, inibe a vascularização da lesão, e a inervação da lesão, modula a resposta imune e regula a dor.

 

Enxaqueca: Inibe a liberação excessiva de serotonina para as plaquetas, prevenindo e tratando a doença e seus sintomas, como náuseas e vômitos.

 

Epilepsia: Interage naturalmente com os receptores endocanabinóides do corpo e silencia o excesso de atividade elétrica, reduzindo ou até mesmo zerando as crises.

 

Esclerose Múltipla: Protege o cérebro, é neurogênico (cria novas células), é antioxidante, alivia a dor, relaxa a musculatura, ajuda na digestão, melhora o sono e protege os olhos dos comuns ‘borrões’.

 

Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA): Trata sintomas como espasticidade, distúrbios do sono, ansiedade, depressão e dores em pacientes com ELA.

 

Esquizofrenia: Melhora os sintomas negativos da doença e os efeitos colaterais dos neurolépticos, além de melhorar as consequências psiquiatras dos pacientes e oferecer potencial antipsicótico.

 

Fibromialgia: Redução na frequência e intensidade das dores e melhora do sono e da fadiga.

 

Glaucoma: Reduz a pressão ocular, dá suporte à saúde do nervo óptico, atuando como neuroprotetor.

 

HIV: Diminui o processo inflamatório causado pelo HIV.

 

Insônia: Promove relaxamento, ameniza desconfortos físicos que podem prejudicar o sono, alivia o estresse e ansiedade e faz dormir mais rapidamente.

 

Obesidade:  Ajuda a impedir a expansão das células de gordura.

 

Osteoporose: Acelera a recuperação de lesões, preserva a densidade óssea e combate a dor e a inflamação.

 

Paralisia Suplanuclear Progressiva: Diminui neuroinflamação, reverte certos déficits cognitivos, anti-inflamatório e neuroprotetor.

 

Psoríase: Reduz inflamações e alivia a dor e a coceira.

 

Síndrome de Dravet e Lennox-Gastaut: Redução ou fim das crises convulsivas, regulação de humor, relaxamento.

 

Síndrome de Tourette: Ajuda a aliviar os tiques, regular o humor e o sono.

 

TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático): Atenua o medo, ajuda a reduzir os “flashbacks” e os pensamentos ligados aos traumas, melhora a irritabilidade e reduz a ansiedade.

 

TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo): reduz os sintomas da doença como compulsão, ansiedade, pensamentos e impulsos indesejados.

 

Além dessa lista, há muitas outras doenças tratadas com canabidiol.

 

Não podemos esquecer que a terapia com canabidiol tem que ter acompanhamento de um médico prescritor em Cannabis.

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Texto adaptado por: Thiago Gnecco Bueno Gomez

Neurocientista – Vice Presidente da APCESP

Este é um conteúdo com propósito informativo. As informações providas são derivadas de pesquisas de fontes externas.

 

Fontes

Doenças tratadas com canabidiol; veja lista com 32 patologias – 8 de abril de 2021 – Dr. Cannabis

 

Cannabis, a planta que vem desde a antiguidade servindo de remédio para muitas doenças -08/01/2021 – Corp life brasil – Principais fontes: World Law Group, Global Report on Cannabis Policy, 2020. Disponível em: https://www.theworldlawgroup.com/writable/documents/news/10.29.2020-Final-Cannabis-Guide.pdf. Acesso em 20 dezembro de 2020. – Crocq M A, History of cannabis and the endocannabinoid system. Dialogues in clinical neuroscience, 2020. – Johnson N., American Weed: A History of Cannabis Cultivation in the United States. Echo Géo. 2019.

 

Tribuna de minas – Por Alice Amaral – 16/08/2021 

 

Cannabis Sativa: conheça doenças que podem ser tratadas com uso terapêutico -Por: Taísa Silveira 10/11/2017-Escrito por Rebeca Ângelis – Unimassa

 

Artigo – O uso medicinal do canabidiol e seu papel no tratamento de doenças – 07/08/2019 – Portal Hospital Brasil – Gustavo de Lima Palhares é CEO da Easy Labs

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